Em agosto de 2026, o cenário da saúde pública no Brasil enfrenta um novo e crítico desafio: o ressurgimento de casos confirmados de sarampo. Até o dia 7 de agosto, o país já havia contabilizado 24 casos, com 23 ocorrências no estado de São Paulo e uma no Rio de Janeiro.
Este aumento é alarmante e ocorre apenas dois anos após o Brasil recuperar, em 2024, a certificação de país livre da circulação endêmica da doença. A combinação da reintrodução do vírus por viajantes internacionais com a existência de bolsões de baixa cobertura vacinal criou um ambiente de vulnerabilidade que exige vigilância constante.
Neste artigo, exploramos o sarampo desde sua fisiopatologia e possíveis complicações até o papel da vacinação e dos exames laboratoriais na prevenção e contenção de novos surtos.
Uma doença "esquecida", mas letal: O que é o sarampo?
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O sarampo é uma doença infecciosa aguda e grave causada por um vírus de RNA da família Paramyxoviridae, gênero Morbillivirus. Sua transmissão ocorre de forma aérea, através de secreções respiratórias (gotículas) expelidas ao tossir, espirrar, falar ou simplesmente respirar.
É considerada uma das doenças mais contagiosas do mundo: uma única pessoa infectada pode transmitir o vírus para até 18 outras pessoas suscetíveis, considerando que as partículas virais podem permanecer ativo no ar ou em superfícies por até duas horas após a pessoa infectada ter deixado o local.
Quando se considera o período de transmissibilidade, a atenção se estende para além do aparecimento dos sintomas mais característicos, já que a pessoa infectada pode transmitir o vírus desde 6 dias antes do surgimento das erupções cutâneas até 4 dias depois.
Sinais e sintomas
Os sinais do sarampo geralmente manifestam-se entre 7 a 21 dias após a exposição ao vírus e podem incluir:
• Febre alta (acima de 38,5°C);
• Tosse e coriza (secreção nasal);
• Irritação nos olhos;
• Mal-estar intenso;
• Sinal de Koplik (pequenos pontos brancos na mucosa interna das bochechas);
• Exantema (erupções cutâneas que se iniciam tipicamente no rosto e atrás das orelhas, espalhando-se pelo tronco, braços e pernas).

Além das manifestações clínicas, o sarampo pode provocar alterações importantes na resposta imunológica. Um dos efeitos descritos é a chamada “amnésia imunológica”, fenômeno em que a infecção pode reduzir a memória imunológica adquirida anteriormente, comprometendo parte da proteção contra agentes infecciosos aos quais o organismo já havia desenvolvido resposta.
Esse efeito pode aumentar a suscetibilidade a outras infecções após a recuperação do sarampo, especialmente em crianças. A duração e a intensidade dessa alteração podem variar, mas seus efeitos podem persistir por meses ou anos.
Risco de complicações graves
O risco de complicações é maior em menores de 5 anos e adultos com mais de 30 anos, sendo mais comum em crianças desnutridas, especialmente com deficiência de vitamina A ou comprometimento do sistema imunológico (por HIV ou outras doenças).
Cerca de 1 em cada 20 crianças com sarampo desenvolve pneumonia, uma das principais causas de morte associadas à doença em crianças pequenas. Outras possíveis complicações incluem:
• Encefalite aguda: Inflamação do cérebro que pode ocorrer em até 4 de cada 1.000 casos, podendo levar a danos cerebrais permanentes ou óbito;
• Otite média aguda (infecção no ouvido): Infecção de ouvido que atinge 1 em cada 10 crianças, com risco de perda auditiva permanente;
• Óbito: pode ocorrer em 1 a 3 de cada 1.000 casos da doença.
Além disso, durante a gestação, a infecção pelo sarampo está associada a maior risco de aborto espontâneo, parto prematuro e baixo peso ao nascer. Por isso, a ocorrência da doença nesse período requer acompanhamento adequado.
Vacinação e prevenção

Antes da introdução da vacina contra o sarampo, em 1963, grandes epidemias ocorriam a cada dois ou três anos e causavam cerca de 2,6 milhões de mortes por ano. Desde então, a imunização mudou significativamente esse cenário: entre 2000 e 2024, estima-se que tenha evitado cerca de 59 milhões de mortes.
Na rotina dos serviços de saúde, a vacinação é indicada para pessoas de 12 meses a 59 anos, conforme a situação vacinal e as recomendações do Calendário Nacional de Vacinação. Adolescentes e adultos que não foram vacinados ou que apresentam esquema incompleto devem iniciar ou completar a vacinação de acordo com as orientações vigentes.
Na rede pública, a proteção contra o sarampo está disponível nas formulações dupla viral (sarampo e rubéola, usada principalmente no bloqueio vacinal durante surtos), tríplice viral (que também protege contra caxumba e rubéola) e tetraviral (que inclui ainda a proteção contra varicela).
Durante a gestação, a vacina tríplice viral é contraindicada. Gestantes que não foram vacinadas ou que apresentam esquema incompleto devem receber a vacinação no período pós-parto, conforme orientação do serviço de saúde.
Como a vacina atua?
As formulações tríplice e tetra viral utilizam vírus vivos atenuados, ou seja, enfraquecidos em laboratório para que não cause a doença, mas mantenham a capacidade de estimular o sistema imunológico. Com isso, o organismo desenvolve anticorpos específicos e células de memória, que permitem uma resposta mais rápida e eficaz diante de um contato posterior com o vírus selvagem.
A estratégia da "dose zero"
Em situações específicas, como surtos ou cenários de maior risco epidemiológico, a vacinação pode ser antecipada para bebês de 6 a 11 meses, por meio da chamada “dose zero”. Incluída com o objetivo de ampliar a proteção dos bebês mais novos durante períodos de maior circulação do vírus, ela não substitui as doses previstas no calendário de rotina, ou seja, após completar 12 meses, a criança deve seguir o esquema vacinal recomendado.
Em contextos de surto, as estratégias de vacinação também podem ser ampliadas para outros grupos, de acordo com a avaliação epidemiológica e as orientações do Ministério da Saúde, com o objetivo de interromper a transmissão.
O papel do diagnóstico laboratorial
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Embora o diagnóstico possa ser clínico, com base nos sinais e sintomas apresentados, os exames laboratoriais são considerados o padrão-ouro e podem apoiar na vigilância epidemiológica. Conheça os principais exames:
• Sorologia (IgM e IgG): Identifica a resposta imunitária do paciente. A presença de anticorpos IgM indica infecção aguda, enquanto o IgG é utilizado para verificar a imunidade prévia (por vacinação ou infecção anterior) ou confirmar soroconversão em amostras pareadas;
• Biologia Molecular (RT-PCR): Detecta o material genético do vírus em amostras de secreções orofaríngeas ou nasofaríngeas e urina.
Proteger-se é um ato coletivo

O retorno do sarampo está relacionado à redução da cobertura vacinal, que pode ser influenciada, entre outros fatores, pela circulação de informações incorretas. Um exemplo conhecido é a publicação, em 1998, de um estudo que associou incorretamente a vacina tríplice viral ao autismo. O trabalho foi posteriormente retratado, e estudos realizados desde então não encontraram evidências dessa relação.
Essa é uma doença grave, mas que pode ser prevenida pela vacinação. Como não existe tratamento específico contra esse vírus, cada vacina tem papel central na redução de casos e complicações. Para reduzir a circulação do sarampo, é necessária uma cobertura vacinal de aproximadamente 95% da população. Esse nível está relacionado à chamada imunidade coletiva, que diminui a possibilidade de transmissão e contribui para proteger pessoas que não podem ser vacinadas ou que apresentam resposta imunológica insuficiente.
A prevenção se constrói a partir de escolhas no dia a dia:
1. Mantenha o histórico vacinal atualizado: pessoas sem registro de vacinação ou com esquema incompleto devem buscar orientação em um serviço de saúde para avaliar a necessidade de iniciar ou completar o esquema;
2. Busque e compartilhe informações confiáveis: consultar fontes reconhecidas e disseminar conteúdos baseados em evidências contribui para ampliar o conhecimento sobre a doença e a vacinação.
Algumas conquistas da saúde pública levam décadas para serem construídas, mas podem ser perdidas quando a prevenção deixa de ser prioridade. O controle do sarampo é uma delas. Mais do que evitar novos casos, manter essa proteção significa não permitir que doenças que aprendemos a prevenir voltem a fazer parte do nosso cotidiano.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Sarampo. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/sarampo. Acesso em: 11 ago. 2026.
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Vacinar para não Voltar. Rio de Janeiro: Bio-Manguinhos, [2022?]. Disponível em: https://prcv.bio.fiocruz.br/portal/index.html. Acesso em: 11 ago. 2026.
GRANCHI, Giulia. Sarampo volta a acender alerta no Brasil: quem precisa se vacinar? Veja perguntas e respostas sobre a doença. BBC News Brasil, 10 ago. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cm2g4kmvpxjo. Acesso em: 11 ago. 2026.
SOUZA, Beto. Surto de sarampo em SP levou à recomendação de revacinação e "dose zero". CNN Brasil, 6 ago. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/surto-de-sarampo-em-sp-levou-a-recommendacao-de-revacinacao-e-dose-zero/. Acesso em: 11 ago. 2026.
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