Um estudo inédito realizado noBrasil identificou uma mudança importante no comportamento de uma dasprincipais superbactérias monitoradas no mundo. A pesquisa analisou mais de 51 mil exames positivos para Staphylococcus aureus coletados entre 2011 e 2021 na macrorregião de São Paulo e constatou um crescimento significativo da circulação da bactéria resistente fora do ambiente hospitalar, em infecções possivelmente associadas à comunidade.
O estudo investigou infecçõescausadas por essa bactéria, um microrganismo comum que habita a pele e as vias respiratórias humanas e que pode provocar desde infecções cutâneas até quadrosgraves na corrente sanguínea. O artigo científico, intitulado “ShiftingEpidemiology of MRSA: Geospatial and Temporal Trends in São Paulo, Brazil(2011–2021)” foi conduzido em parceria entre a Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa (AFIP) e a Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), por meio do Grupo de Análise em Infecções e Antimicrobianos (GAIA) e publicado no dia 3 de março no site darevista Research Connections, da Oxford University Press.
A pesquisa utilizou dados laboratoriais de uma década gerados pela AFIP, instituição que realiza exames microbiológicos para mais de 600 unidades de saúde, incluindo hospitais,laboratórios, serviços de emergência e unidades de atenção primária. A base dedados permitiu analisar 51.532 casos únicos da bactéria, constituindo uma das maiores análises populacionais já realizadas sobre esta forma resistente, em países de renda média.
“O grande diferencial do estudo é a escala e a consistência dos dados laboratoriais utilizados. Conseguimos analisar exames microbiológicos em uma população muito ampla, o que permite observar tendências epidemiológicas que dificilmente seriam identificadas em estudos menores”, explica Jussimara Monteiro, pós-doutora em biologia molecular, gerente do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da AFIP e coautora do trabalho.
Mudança no padrão das infecções
Uma das principais preocupações da medicina ocorre quando essa bactéria desenvolve resistência aos antibióticos. Nesse caso ela passa a ser classificada como MRSA (Methicillin-ResistantStaphylococcus aureus), uma variante resistente a medicamentos da família da penicilina, como a oxacilina, tradicionalmente utilizados no tratamento dessas infecções. Em outras palavras, todo MRSA é um Staphylococcusaureus, mas nem todo Staphylococcus aureus é resistente a antibióticos.
Segundo os pesquisadores, o MRSA é considerado uma das bactérias prioritárias para vigilância global pela Organização Mundial da Saúde devido à dificuldade de tratamento e ao risco de disseminação.
Os resultados indicam uma inversão no padrão epidemiológico das infecções ao longo da última década. Os casos associados ao ambiente hospitalar apresentaram queda progressiva anual de aproximadamente 2,48%, enquanto as infecções com padrão comunitário registraram crescimento médio anual de 3,61% ao longo do período analisado.
Entre as amostras possivelmente associadas à comunidade, cerca de 22% já apresentavam resistência - MRSA, percentual considerado elevado para uma bactéria historicamente associada a infecções hospitalares. Esse patamar já pode ser interpretado como um cenário de risco epidemiológico, segundo os pesquisadores. “O MRSA sempre foi considerado um problema predominantemente hospitalar, mas nossos dados mostram que ele pode estar se expandindo na comunidade”, afirma Carlos Kiffer, professor de Infectologia da UNIFESP e pesquisador líder do Grupo de Análise em Infecções e Antimicrobianos (GAIA), além de autor sênior do estudo.
Para Jussimara Monteiro, o resultado representa um alerta importante para a vigilância epidemiológica. “Estudos anteriores sobre essa bactéria no Brasil costumam avaliar hospitais específicos ou regiões isoladas. Aqui conseguimos observar o comportamento do microrganismo em uma grande população ao longo de uma década, o que permite identificar tendências epidemiológicas que antes passavam despercebidas e exige um novo olhar para estratégias de vigilância e diagnóstico. A comunidade médica precisa estar atenta a esse novo cenário para que o tratamento seja adequado desde o primeiro atendimento”, afirma.
Bolsões de circulação da bactéria
O estudo também mapeou adistribuição geográfica da bactéria, identificando regiões com maior concentração de casos, os chamados “hotspots” epidemiológicos, especialmente na macrorregião metropolitana de São Paulo, que reúne cerca de 173 municípios e grande parte da população do estado.
Entre os exemplos apontados pelos pesquisadores estão o centro da capital paulista e áreas do litoral paulista, como a região de Santos, que apresentaram sinais de maior concentraçãoda bactéria resistente. “A resistência bacteriana não se distribui de forma homogênea na população. Identificar esses bolsões geográficos ajuda a direcionar ações de vigilância e controle de forma mais eficiente”, explica Jussimara Monteiro.
Ambientes com grande circulação depessoas e contato físico frequente podem favorecer esse processo. Entre eles estão transporte público, academias, escolas, vestiários e outros locais com compartilhamento de superfícies. “Como se trata de uma bactéria de pele, ambientes com aglomeração de pessoas e contato físico frequente facilitam a transmissão”, afirma Jussimara.
A análise também mostrou que o Staphylococcusaureus resistente esteve associado a 43% das infecções avaliadas, com maior incidência em crianças pequenas e idosos.
Tratamento e prevenção
Segundo os pesquisadores, o principal impacto imediato do fenômeno está no tratamento clínico. Quando oMRSA não é considerado na hipótese diagnóstica, pacientes podem receber antibióticos que não são eficazes contra a bactéria resistente. “Se o médico não considerar a possibilidade de MRSA, o tratamento pode começar com antibióticos inadequados, o que aumenta o risco de complicações e internações”, afirma Kiffer.
Para os autores, os resultados reforçam a importância de ampliar a vigilância epidemiológica e fortalecer o monitoramento da resistência antimicrobiana também fora dos hospitais. Algumas das formas de prevenção à transmissão da Staphylococcus aureus são medidas simples de higiene como a lavagem frequente das mãos com água e sabão, ou o uso de álcool em gel quando necessário. Também é fundamental manter cortes e feridas sempre limpos e cobertos, trocando os curativos regularmente e evitando tocar ou manipular lesões na pele. A higienização de ambientes e de objetos de uso coletivo, especialmente em locais com grande circulação de pessoas também fazem parte das recomendações para reduzir o risco de transmissão.
Por fim, o uso responsável de antibióticos é essencial, sempre com orientação médica e seguindo corretamente o tempo de tratamento, medida que ajuda a evitar o surgimento e a disseminação de cepas resistentes, como o MRSA.
.png)

